26.04.2008 – Mostra Pernambuco
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Abril 26, 2008, 4:08 am
Arquivado em: Cobertura | Tags: 26, Abril, Chico Lacerda, Cine PE, Daniel Aragão, Fernando Victorino, Geórgia Alves, Mostra Pernambuco, Nelson Sampaio, Paulo Leonardo, Virgínia Carvalho, Wilson Freire
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PROGRAMAÇÃO:
As Scismas do Destino
(Dir.: Paulo Leonardo Souza, 9′ – Disponível no youtube)
Doce e Salgado
(Dir.: Chico Lacerda, 8′ – Teaser no youtube)
Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico
(Dir.: Wilson Freire, 22′ – Site)
A Última Diva
(Dir.: Nelson Sampaio, Fernando Victorino e Virgínia Carvalho, 15′ – Disponível no youtube: parte 01 / parte 02 )
Solidão Pública
(Dir.: Daniel Aragão, 16′).
O Triunfo
(Dir.: Geórgia Alves, 10′ – Blog)
Serviço:
Local: Cinema da FUNDAJ – Rua Henrique Dias, 609, Derby.
Hora: 19h
Entrada: R$ 6,00 (inteira) / R$ 3,00 (acima de 60 anos / estudante)
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Publicado originalmente no meu blog pessoal.
Acho que o melhor de ontem – além de chegar com os ingressos esgotados, conseguir entrar e entrar de graça – foi perceber algumas reações de um distinto senhor sentado ao meu lado. Primeiro ele reclamou da música irritante e depois do atraso. Em dado momento da espera, olhou o relógio mais uma vez e resmungou que aquilo não era comum na Fundaj. Concordei, lógico. Tenho simpatia ilimitada por velhos ranzinzas: é quase como vislumbrar um pedaço do meu futuro. Pelo tom da conversa com a mulher que o acompanhava, ele – o senhor – frequentava semanalmente aquele espaço e não tinha resquício de noção da chacota que é o Cine PE. Para os que não sabem, vale só lembrar que o atraso é o menor dos problemas. Como de rotina, rolou as apresentações iniciais – aos quais não vou me deter – e, quando os filmes começaram, tudo ficou mais engraçado. O senhor bateu palmas receosas para o primeiro; estalou os dedos e não bateu para o segundo, bateu no mesmo ritmo do resto da sala eufórica no terceiro, bateu de leve, quase alisando os dedos para quarto, fez várias caretas de gosto e desgosto ao término do quinto e foi ao banheiro e nunca mais voltou no meio do último. Claramente ele estranhou o ritual de comportamento da platéia do festival e admito que até hoje, faço graça das palmas, mas também não sou chato ao ponto de não me deixar levar. Aplaudo quando sinto vontade de aplaudir, imito o ‘cri cri cri’ do grilo, fico em silêncio, choro, faço piada, mando tomar no cu. Parafraseando Baixio das Bestas (rá), o bom do Cine PE é que nele você pode fazer o que quiser.
Pra facilitar a minha vida, a sua, a dele vamos ao resumo da programação da noite: só gostei bastante do filme sobre Miró, dirigido por Wilson Freire. O que me surpreendeu. Achei o documentário apressado, debochado, um tanto brega e fundado num discurso de cosmopolitismo periférico que casa perfeitamente com o ritmo do próprio poeta. Além disso, o filme expõe enquadramentos espertos em cenários visualmente banalizados para nós, recifenses. A Ponte ou o Mercado da Boa Vista, por exemplo. O que mais me chamou a atenção foi a própria maneira de conduzir a obra, porque inicialmente achei que a figura de Miró poderia suplantar tudo, inclusive o diretor. E isso não acontece. Pelo contrário: há um senso de espaço compartilhado para ambos. O que dá uma leveza, espontaneidade e naturalidade ao andamento. O tal alegrismo que ele fala. Se existe essa beleza mais formal na obra – que falha um pouco na edição apenas, também temos tudo que poderíamos previamente esperar e que não poderia deixar de ter. Aí colocamos a poesia corporal do cara, as histórias pesadas, as piadas ótimas, os inventos, as figuras e mesmo as presenças ilustres, Jomard, França, Lucila. O Recife sujo, belo e as mesas de bar. Se a Mostra Pernambuco fosse um bolão seria Miró na cabeça sem perder de vista, Paulo e Daniel. Pois é, os apóstolos. Engraçado que ambos foram traídos justamente pela palavra: o primeiro por usá-la excessivamente através dos cartazes e o segundo por forçar um teor poético poético desnecessário no off. Os outros três, eu prefiro nem comentar. Só acho que A Última Diva vale alguma atenção pelo que a própria diretora falou no começo: o resgate histórico. Ponto. Feito o resgate, tchau.
Só pra terminar esse comentário, não posso esquecer de falar que do meu outro lado, o esquerdo, tinha uma possível jornalista sentada: olhos na tela, mão no lápis, lápis no caderninho. Eu já estava bocejando de tédio, quando seu braço esbarrou no meu e a percebi escrevendo, depois virando página, tudo sem tirar o olho do filme. Juro que aquele modos operandi só me remeteu a Chico Xavier. Uma espécie de psicografia cinematográfica.
Comment por Rodrigo Almeida Abril 28, 2008 @ 3:10 pmNo meu caso, teu melhor é o meu pior, Rodrigo: tinha convite esperando na bilheteria e ainda assim não entrei, já que é CinePE e meus acompanhantes não conseguiram comprar ingresso. Incrível como o festival virou uma verdadeira grife. Coloca o nome em qualquer sessão, em qualquer lugar, tem um pedaço extenso de classe média que vai se reunir e bisbilhotar.
Obviamente, não posso comentar a sessão propriamente dita, apenas alguns dos filmes. Não vi Miró nem A Última Diva, mas tenho meus likes e dislikes quanto aos outros. Mesmo que suspeitos.
Quanto a As Scismas do Destino, minha impressão é boa. Assisti ao filme no Festival de Video e fiquei bastante surpreso com o percurso que o trabalho de Paulo Leonardo tem tomado. No video,
gosto das escolhas na direção de arte e de seu resultado técnico. Acho muito interessante, aliás, a forma com que a obra se apropria de argumentos de uma reverberação às vezes expressionista, às vezes noir do cinema e reutiliza a cidade do Recife como espaço possível para uma ficção universalizante, ainda que cheia de referências marcadas. Potencial.
Solidão Pública é fruto de um bom projeto do SPA das Artes. A ironia da exposição da miséria e da solidão, no perigo de uma corda bamba entre o sincero e o espontâneo, o perverso e o apelativo, confere a dimensão dramática do documentário (ou do “projeto experimental”, como estava classificado e ganhou o prêmio do Festival de Video). Lembro que, durante sua exibição, fiquei realmente chocado com a cena de três minutos em silêncio. Nunca vi uma sala de projeção daquele jeito. Às vezes um barulho de rua acompanhava o velho na tela, outras um silêncio profundo evidentemente incomodava muita gente na platéia, mas também oprimia e exigia sua presença. Por isso, talvez, tenha conseguido observar um certo constrangimento em diversas pessoas que deixavam o teatro.
Acho que o filme de Daniel merece atenção, embora o escorrego em um perigoso narcisismo possa por em xeque uma “legitimidade política”. O off da auto-condescendência em “fazer documentários” desvia o foco para um drama insipiente do autor, que empobrece inclusive a força de um possível documento. Ainda assim, acho que a experiência tem momentos memoráveis.
Não vou falar muito de O Triunfo, pois não tive boas impressões e, aliás, realmente não me lembro de detalhes. Apenas recordo aquele início num ultra-close cheio de brancos, enfoques e desfoques, provavelmente porque são as únicas passagens que me marcaram positivamente. E isso me remete a uma questão maior, ao tratar do último video.
No caso de Doce e Salgado (e é muito engraçado partir pra um momento como esse), a quantidade de lembranças que tenho do filme é gigante, talvez por isso seja tão difícil criticá-lo. Trabalhei com a direção de fotografia do filme, além de ter operado a câmera em algumas cenas, ainda no final de 2006. O video foi realizado como conclusão de uma oficina ministrada por Maria Pessoa e tem seqüências rodadas em 16mm. Este processo, com o plus do peso de trabalhar com película, fortalecem o caráter experimental (a equipe era quase toda de desconhecidos) e ao mesmo tempo “precioso” daquilo tudo.
Não cabe uma reflexão mais longa aqui, então deixo prum outro momento comentários específicos sobre o processo. Mas penso o quão curiosa é a diversidade de relações já estabelecidades entre eu e o filme de Chico, e de que forma este vínculo sentimental tem ganhado significados diferentes (tal qual no lugar de cada etapa, até o acompanhamento da montagem, e as diversas vezes em que assisti à obra até hoje). Claro, não poderia falar, no lugar de crítico, sobre algo de que participei profundamente (ao menos que numa outra circunstância). Me parece mesmo é que realizar um filme é hipercriticá-lo. E aí eu entendo Daniel, embora reconheça seus riscos.
Comment por Luís Fernando Moura Abril 28, 2008 @ 6:56 pmLuís, eu não cheguei a comentar no meu microtexto, mas em termos de qualidade técnica eu gosto absurdamente do ‘As Scimas do Destino’, de Paulo. Não me faltam motivos: admiro o uso dos diversos estilos de animação e como eles criaram um hibridismo criativo na obra, admiro a combinação desses estilos com cenas ‘reais’, admiro a fotografia que pincela um segunda camada de tom expressionista, afinal este tom já está assumido em toda distorção do cenário. Por sinal, há até uma cena do rosto do ator que me remete diretamente a um momento de Nosferatu. A luz tremulante e a própria expressão são idênticas. Entretanto, não senti a mesma sagacidade de Somos Somos, seu trabalho anterior – que usa de um conto popular extremamente conhecido, para brincar com um milhão de referências psicodélicas, trombeta, maconha, tudo… usando sempre a psicodelia na própria linguagem. Não assisti Somos Somos no cinema, mas quando o vi na casa do outro diretor, André Pyrrho, fiquei um tanto maravilhado como uma premissão tão simples tinha se tornado uma obra tão mais complexa. Eu simpatizei de imediato e como André estava ao meu lado, pude conversar, trocar idéias, tirar dúvidas e assim, expandi totalmente o meu olhar. Pupila dilatada. Re-assisti hoje e continuo com a mesma impressão.
O problema de “As Scismas do Destino”, para mim, ficou a cargo do excesso de letreiros, porque eles terminam ocupando um tempo enorme e desviam a atenção para o que há de melhor no próprio filme. Há até uma certa quebra de ritmo sucessiva que me irritou um pouco. Em Somos Somos, o texto é muito bem colocado e o ritmo acelera e desacelera sem precisar de interrupções grosseiras. E essa minha crítica também não é um desmerecendo ao poema do Augusto dos Anjos. Longe disso. É muito mais uma angústia por alguns elementos cinematograficamente menos interessantes (‘palavras a serem lidas’), suplantarem a extraordinária ‘pintura imagética’. Foi por isso que usei a expressão ‘traídos pela palavra’ nesse caso. Acho que o que aconteceu, infelizmente, foi que a palavra desmereceu em parte a imagem, ao invés de integrá-la e torná-la mais consistente (o que acontece plenamente em Somos Somos). Não é uma questão de qualidade do poema, mas do lugar que lhe coube dentro da história. Enfim… o bom é a discordância de opinião mesmo, gostaria até que Paulo falasse algo. Vou mandar o link pra ele.
(São 03:43… amanhã termino de responder sobre os outros)
Comment por Rodrigo Almeida Abril 29, 2008 @ 6:43 amOi! Bacana seu espaço. Grata por linkar o blog. Estou alimentando pouco. Quase só ficha técnica e agradecimentos. Vi que O TRINFO quase nem é citado. Até para mim foi surpresa a premiação na mostra. Não pelo que o filme provoca. Mas pela maneira despretenciosa como foi feito. Em setembro tem são paulo, por convite da organização da mostra paulista de filmes nordestinos. Não vai agradar a todos, mas vejo que algumas pessoas se sentem bem representadas. De toda sorte, o foco, era responder à pergunta: o que é preciso para Amar Clarice? Para mim foi acolher. Talvez, já baste aceitá-la. Abraço,
Comment por Geórgia Alves Junho 6, 2008 @ 2:40 pm